Tava na cara. Acompanhe a história: os deputados tentam aumento. Próximo de eleição. População contrária. Opinião pública -ela existe mesmo?!- adversa. Guarda-se na gaveta.
Passa o reveillon, o carnaval, as barbáries, a "páginas da vida" e tudo o mais. Então, na calada da noite, na surdina das más notícias, eles vão e se auto-concedem o aumento.
A princípio, apenas (?!) 26,49%. Bem diferente dos quase 100% de antes. Mas, nas letrinhas pequenas, eles incluem que NÃO precisam mais prestar contas com despesas pessoais e de locomoção. Isso aí. Pegam nosso dinheiro e não dizem, sequer, se gastaram com aquilo a que o valor se propunha. Some tudo isso com os outros benefícios e aí, o salário quase dobra. Ou seja, os 100% voltam. Mas bonitinho e tragável por todos nós.
Para mim, o nariz vermelho e a conta, por favor.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Só que...
é importante lembrar uma coisa. Collor pagou sozinho o pato por um esquema que contou com a participação de muitas pessoas. Algumas que até hoje ainda rondam as esferas do poder. E a quadrilha de antes parecia ser bem mais light do que a dos últimos tempos.
E, dos últimos escândalos, não houve um só, unzinho, que esteja pagando por nada. Nem Jefferson. Nem Dirceu. O argumento, lógico, não serve para inocentar os erros do passado. Mas passam a sensação de involução e de que a ré continua engatada e o pé aperta fundo o acelerador.
E, dos últimos escândalos, não houve um só, unzinho, que esteja pagando por nada. Nem Jefferson. Nem Dirceu. O argumento, lógico, não serve para inocentar os erros do passado. Mas passam a sensação de involução e de que a ré continua engatada e o pé aperta fundo o acelerador.
Ao menos isso
Sei que o tempo passou. Mas faço questão de comentar. A fala do senador Pedro Simon (PMDB) na última quarta-feira, 14/03, trouxe um pouco a casa (e o país) à realidade. Assisti ao pronunciamento do senador gaúcho, bem como havia assistido à boa parte do discurso inaugural de Fernando Collor (PTB) no senado. Quando o ex-presidente falou parece que todo o plenário resolveu fazer sua mea-culpa, quase que se perdoando com Collor por tudo o que foi feito. A fala de Aloisio Mercadante (PT) quase se transforma no mais humilhante pedido de desculpas já feito em solo brasileiro.
Só salvou-se mesmo -e ainda assim, só na semana seguinte- a sobriedade de Simon, que decidiu usar o parlatório para relembrar aos colegas -e quem sabe, à nação- que a destituição do então presidente, em 1992, teve, sim senhor, muita motivação e muitos fatos para ocorrer. O debate foi marcante e contou com boas pitadas de ironia por parte de Simon. "Vossa Excelência, senador Collor, daria um bom advogado. Joga com os fatos com muita maestria", disse o gaúcho quando o ex-presidente argumentava que os fatos do STF (que não encontrou provas suficientes para condená-lo) não permitiam mais argumentos. E coube ainda a Simon traduzir a revolta de muitos contra o Supremo, que nunca, em sua história, condenou nenhum político. "O Brasil é o país da impunidade não porque quando o 'joãozinho' rouba uma galinha não vai preso. Mas porque nunca o Supremo Tribunal Federal condenou nenhum político. Nem um deputadozinho sequer", disse Pedro Simon.
Os apartes de Arthur Vigílio (PSDB), Tasso Jereissati (PSDB) e Aloisio Mercadante (PT) foram grandes justificativas pelos apartes durante o discurso de Collor. Pareciam meninos envergonhados, pegos com a boca na botija. Não sei se foi fisiologismo. Não sei se foi oportunismo. Sei que faltava uma voz coerente no senado. E ela veio com Pedro Simon. Somente por isso, palmas para ele.
Só salvou-se mesmo -e ainda assim, só na semana seguinte- a sobriedade de Simon, que decidiu usar o parlatório para relembrar aos colegas -e quem sabe, à nação- que a destituição do então presidente, em 1992, teve, sim senhor, muita motivação e muitos fatos para ocorrer. O debate foi marcante e contou com boas pitadas de ironia por parte de Simon. "Vossa Excelência, senador Collor, daria um bom advogado. Joga com os fatos com muita maestria", disse o gaúcho quando o ex-presidente argumentava que os fatos do STF (que não encontrou provas suficientes para condená-lo) não permitiam mais argumentos. E coube ainda a Simon traduzir a revolta de muitos contra o Supremo, que nunca, em sua história, condenou nenhum político. "O Brasil é o país da impunidade não porque quando o 'joãozinho' rouba uma galinha não vai preso. Mas porque nunca o Supremo Tribunal Federal condenou nenhum político. Nem um deputadozinho sequer", disse Pedro Simon.
Os apartes de Arthur Vigílio (PSDB), Tasso Jereissati (PSDB) e Aloisio Mercadante (PT) foram grandes justificativas pelos apartes durante o discurso de Collor. Pareciam meninos envergonhados, pegos com a boca na botija. Não sei se foi fisiologismo. Não sei se foi oportunismo. Sei que faltava uma voz coerente no senado. E ela veio com Pedro Simon. Somente por isso, palmas para ele.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Resumo do medo
A frase foi escutada em uma viagem do ônibus 422 (Cosme Velho - Grajaú), no sentido zona norte. Uma mulher contava a outra sobre os preparativos que fazia, diariamente, para o filho que saía cedo para trabalhar. A outra, que ouvia, interpelou a colega, questionando se ela não preferia ficar na cama a ter de acordar cedo para um filho que já era "homem feito". Ao que mãe respondeu: "Eu às vezes até quero ficar na cama para dormir mais um pouco. Mas na hora eu penso: 'Vou levantar. Não sei se é a última vez que vejo meu filho'. E vou lá vê-lo e me despedir dele".
Não é fácil viver em uma sociedade que cria esse tipo de medo. Pior do que termos sido capazes de criar essa selvageria é continuarmos a perpetuar essa autofagia animal. Às vezes duvido de nossa racionalidade propalada e me pergunto se não faço parte de um daqueles documentários do National Geographic. Sem nem contar com o benefício de saber ao certo quem é presa e quem é predador.
Não é fácil viver em uma sociedade que cria esse tipo de medo. Pior do que termos sido capazes de criar essa selvageria é continuarmos a perpetuar essa autofagia animal. Às vezes duvido de nossa racionalidade propalada e me pergunto se não faço parte de um daqueles documentários do National Geographic. Sem nem contar com o benefício de saber ao certo quem é presa e quem é predador.
E por falar nisso...
Já coloquei aqui há tempos atrás. Mas não adianta lembrar da pergunta só depois da tragédia consumada. É bom exercitar a cidadania questionando-nos após situações como a citada no post anterior.
E para isso, nada melhor do que a "filosofia social" proposta pelo sociólogo Emir Sader, logo após a brutalidade do menino que foi arrastado pelas ruas da cidade. "A sociedade tem que olhar para esses crimes como quem olha para o espelho, e se perguntar: que sociedade é essa que produz esse tipo de meninos? E não como quem olha pela janela, como algo alheio". É essa pergunta que o segurança das Lojas Americanas, seus supervisores que o orientaram a agir dessa forma, os funcionários da empresa que participaram e todos os que o ajudaram e o apoiaram, deveriam fazer.
Depois que se der o problema, a gritaria vai ser só bravata de quem não quer se responsabilizar.
E para isso, nada melhor do que a "filosofia social" proposta pelo sociólogo Emir Sader, logo após a brutalidade do menino que foi arrastado pelas ruas da cidade. "A sociedade tem que olhar para esses crimes como quem olha para o espelho, e se perguntar: que sociedade é essa que produz esse tipo de meninos? E não como quem olha pela janela, como algo alheio". É essa pergunta que o segurança das Lojas Americanas, seus supervisores que o orientaram a agir dessa forma, os funcionários da empresa que participaram e todos os que o ajudaram e o apoiaram, deveriam fazer.
Depois que se der o problema, a gritaria vai ser só bravata de quem não quer se responsabilizar.
táticas americanas
As Lojas Americanas andam fazendo jus ao nome e utilizando táticas dignas de Bush no Iraque. Ontem, por volta das 18h30, o segurança da loja "express" da Rua Visconde de Pirajá (altura do número 330) retirou quatro crianças de rua no maior estilo "Old West". Ou seja, aos tapas, apertões no pescoço e muita, mas muita, cara de mal. Tudo isso, sob a aprovação de diversas pessoas que aguardavam ônibus e diziam: "tá certo", "isso mesmo", "isso não é criança mais não...".
Ainda que os meninos estivessem cometendo (ou prestes a cometer) algum delito, o ato foi injustificável. O segurança acumulou as funções de força policial, juiz e carrasco. O pior de tudo é a gente tratar as crianças dessa forma agora e, no futuro, querer posar de bom-moço e dizer, com cara de desentendido, que não entende de onde pode vir tanta violência.
Ainda que os meninos estivessem cometendo (ou prestes a cometer) algum delito, o ato foi injustificável. O segurança acumulou as funções de força policial, juiz e carrasco. O pior de tudo é a gente tratar as crianças dessa forma agora e, no futuro, querer posar de bom-moço e dizer, com cara de desentendido, que não entende de onde pode vir tanta violência.
terça-feira, 20 de março de 2007
Maquiagem carioca
Fiquei sabendo, há alguns dias, que a prefeitura do Rio -sempre ela- pensa em importar uma ação da China, com vistas ao Pan-2007. A idéia é fazer no Rio como os chineses fazem em Pequim, onde são ministrados cursos e ensinamentos de bons modos aos habitantes, para evitarem "coisas feias" durante as Olimpíadas do ano que vem, tais como cuspir na rua, dentre outras "travessuras".
Resumidamente, gastaremos dinheiro (nosso) em cursos, aulas ou cartilhas (a notícia não especificava como seria feito nas bandas de cá) para, durante o período dos jogos, a população inteira fingir que é educada. Depois, tudo volta ao normal na cidade maravilhosa, já que sem jogos ou eventos do tipo, não se justifica investir em educação.
Cá pra nós, se no Pan-Americano houvesse medalhas por cara-de-pau, perigava todas ficarem por aqui mesmo.

Resumidamente, gastaremos dinheiro (nosso) em cursos, aulas ou cartilhas (a notícia não especificava como seria feito nas bandas de cá) para, durante o período dos jogos, a população inteira fingir que é educada. Depois, tudo volta ao normal na cidade maravilhosa, já que sem jogos ou eventos do tipo, não se justifica investir em educação.
Cá pra nós, se no Pan-Americano houvesse medalhas por cara-de-pau, perigava todas ficarem por aqui mesmo.

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